{"id":28405,"date":"2025-05-30T21:25:06","date_gmt":"2025-05-31T00:25:06","guid":{"rendered":"https:\/\/noticiasnoface.com.br\/?p=28405"},"modified":"2025-05-30T21:25:06","modified_gmt":"2025-05-31T00:25:06","slug":"vibradores-vulva-de-pelucia-e-whatsapp-a-educadora-sexual-que-defende-direito-ao-prazer-de-mulheres-da-periferia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasnoface.com.br\/index.php\/2025\/05\/30\/vibradores-vulva-de-pelucia-e-whatsapp-a-educadora-sexual-que-defende-direito-ao-prazer-de-mulheres-da-periferia\/","title":{"rendered":"Vibradores, vulva de pel\u00facia e WhatsApp: a educadora sexual que defende direito ao prazer de mulheres da periferia"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-opt-id=1624638681  fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/7857\/live\/50c61970-3d85-11f0-8fa6-57e840e6fcdb.jpg.webp\" alt=\"Mulheres sorrindo e posando para foto em frente a cartaz do projeto Ana Autoestima; uma delas segura uma vulva de pel\u00facia\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ana Autoestima \u00e9 uma personagem virtual criada para falar de sexo sem tabus com moradoras de favelas. Na foto, algumas mulheres por tr\u00e1s do projeto: Evelyn dos Santos (segurando uma vulva de pel\u00facia usada com fins educativos); a pedagoga Tayana Le\u00f4ncio (dir.) e a educadora sexual Laura Ramos Tom\u00e1s (segunda \u00e0 esq.)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list list-style-type-none\">\n<li>J\u00falia Dias Carneiro<\/li>\n\n\n\n<li>Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil<\/li>\n\n\n\n<li><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Ta\u00eds colocou sete filhos no mundo, mas s\u00f3 mais tarde passou a conhecer o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cn0rzwpe01jo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">prazer sexual<\/a>. Diana n\u00e3o sabia que podia ter prazer sem depender do parceiro \u2013 at\u00e9 ganhar um&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-46444693\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vibrador<\/a>. Evelyn passou por uma s\u00e9rie de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-52998256\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relacionamentos abusivos<\/a>&nbsp;at\u00e9 aprender a identificar que aquelas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram aceit\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Moradoras do Parque Anal\u00e2ndia, favela no munic\u00edpio de S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti (RJ), na Baixada Fluminense, essas e outras&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c8y94yx8n48t\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mulheres<\/a>&nbsp;da comunidade passaram a trilhar um caminho de descobertas e autoconhecimento j\u00e1 em idades maduras, depois de conhecerem a Ana Autoestima.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana, como chamam a &#8220;amiga&#8221;, \u00e9 negra, corpulenta e estilosa. Usa \u00f3culos de aro preto, brinc\u00e3o,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-56670268\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cabelo cheio<\/a>&nbsp;e um blazer amarelo-manga. Seu rosto simp\u00e1tico est\u00e1 grafitado em um muro colorido no Parque Anal\u00e2ndia, ao lado de outras figuras femininas com corpos de diferentes padr\u00f5es e tons de pele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No topo do painel, a frase: &#8220;Nunca deixe algo ou algu\u00e9m apagar seu brilho&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Autoestima \u00e9 uma personagem virtual criada pela empresa social Tabu Tabu para promover, usando grupos de WhatsApp, a educa\u00e7\u00e3o sexual, o autoconhecimento e o direito ao prazer entre mulheres de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-64418432\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">periferias<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa busca preencher lacunas ligadas \u00e0s vulnerabilidades que acompanham a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cxnyknq2685t\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pobreza<\/a>&nbsp;\u2013 como maior exposi\u00e7\u00e3o a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c3gy24y5kz2o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">viol\u00eancia urbana<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-63815180\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dom\u00e9stica<\/a>, falta de acesso a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c340q430z4vt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sa\u00fade<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c340q430dzvt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">educa\u00e7\u00e3o<\/a>de qualidade, al\u00e9m da falta de tempo e recursos para se informar.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a educadora sexual Laura Ramos Tom\u00e1s, cocriadora do projeto, mulheres de periferias em geral n\u00e3o buscam informa\u00e7\u00f5es sobre sexo no sistema de sa\u00fade. Isso porque, quando o fazem, encontram abordagens mais ligadas a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-61842564\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contracep\u00e7\u00e3o<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cxx332150djo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as<\/a>do que sa\u00fade sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, elas tamb\u00e9m enfrentam estigma e julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando procuram postos de sa\u00fade, ouvem coment\u00e1rios como &#8216;toma, leve essas camisinhas porque voc\u00ea j\u00e1 tem muitos filhos&#8217;, em vez de abordagens mais adequadas a suas realidades&#8221;, afirma Laura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Espanhola radicada no&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c06gq6krk66t\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rio<\/a>, Laura conta que teve a ideia para a iniciativa depois de realizar uma roda de conversa sobre sexualidade com adolescentes na favela e ser abordada por uma mulher mais velha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher disse que aquelas informa\u00e7\u00f5es seriam importantes para ela tamb\u00e9m, porque ela n\u00e3o tinha acesso a algo do tipo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-opt-id=1211536242  fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/753d\/live\/b6c56d00-3d82-11f0-8fa6-57e840e6fcdb.jpg.webp\" alt=\"Uma mulher em p\u00e9 com beb\u00ea no colo e outras tr\u00eas mulheres sentadas em roda\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Laura Ramos Tom\u00e1s (esq.), fala com mulheres da comunidade durante roda de conversa<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Quer\u00edamos dialogar com essas mulheres de uma forma que os servi\u00e7os de sa\u00fade n\u00e3o fazem. Ent\u00e3o, viemos at\u00e9 onde elas est\u00e3o, suas comunidades, e usamos o WhatsApp, o aplicativo mais usado no Brasil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto come\u00e7ou a ser gestado em 2021 e teve o primeiro grupo de WhatsApp lan\u00e7ado em 2023, com as mulheres do Parque Anal\u00e2ndia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a iniciativa est\u00e1 presente em quatro favelas do Rio, somando cerca de 200 participantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m est\u00e3o sendo desenvolvidos n\u00facleos em novos bairros, chegando \u00e0s mulheres atrav\u00e9s do boca a boca e de parcerias com projetos sociais nas comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Ta\u00eds dos Reis Motta, m\u00e3e, dona de casa e moradora do Parque Anal\u00e2ndia, diz que os ensinamentos da personagem ajudaram a aumentar sua autoestima, a gostar mais do seu corpo e a entender que pode dizer &#8220;n\u00e3o&#8221; para o sexo quando n\u00e3o quer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sua vida sexual tamb\u00e9m melhorou, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Melhorou e muito! Porque eu nem gostava. Eu fazia por fazer. Por uma vida passada que eu tive, eu nem sabia o que era sentir prazer. Voc\u00ea acredita?&#8221;, pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu, com 35 anos, m\u00e3e de sete filhos. E n\u00e3o sabia. Foi atrav\u00e9s daqui [que aprendi]&#8221;, disse Ta\u00eds \u00e0 reportagem, durante um encontro do projeto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;[A Ana Autoestima] me ensinou a ter o meu autoconhecimento, explorar o meu corpo. Hoje eu me sinto muito mais feliz do que antes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-opt-id=2050418350  data-opt-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/931b\/live\/fc2c69d0-3d81-11f0-8fa6-57e840e6fcdb.jpg.webp\"  decoding=\"async\" src=\"data:image/svg+xml,%3Csvg%20viewBox%3D%220%200%20100%%20100%%22%20width%3D%22100%%22%20height%3D%22100%%22%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%3E%3Crect%20width%3D%22100%%22%20height%3D%22100%%22%20fill%3D%22transparent%22%2F%3E%3C%2Fsvg%3E\" alt=\"Ta\u00eds Motta sorrindo em frente a muro grafitado com desenhos de mulheres pretas\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">&#8216;Eu nem sabia o que era sentir prazer&#8217;, conta Ta\u00eds Motta. &#8216;Com 35 anos, m\u00e3e de sete filhos e n\u00e3o sabia&#8217;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Virtual e presencial<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos grupos de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cd6q897y2e7o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">WhatsApp<\/a>, Ana Autoestima posta v\u00eddeos simples e divertidos para abordar temas variados sem tabu, sempre come\u00e7ando por &#8220;oi, amiga!&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A personagem ensina sobre sexo seguro e preven\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m sobre prazer, consentimento, direitos e autocuidado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os t\u00edtulos exemplificam a gama de assuntos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nem todo prazer sexual \u00e9 sexo&#8221;, ensina&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5BCT2zm9vIY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um v\u00eddeo<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem certeza que conhece o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-58496415\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clit\u00f3ris todinho<\/a>?&#8221;, pergunta&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SwadRAsd1KE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">outro<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;J\u00e1 ouviu falar da montanha-russa do prazer?&#8221;, questiona um&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HmPm3ZCwHz8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">terceiro<\/a>, descrevendo a pot\u00eancia org\u00e1stica feminina como um carrinho que sobe uma montanha-russa e precisa de carga progressiva at\u00e9 chegar ao topo.<\/p>\n\n\n\n<p>A personagem fala em uma voz gerada por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c2kx2e74jyxo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">intelig\u00eancia artificial (IA)<\/a>, mas seus roteiros s\u00e3o cuidadosamente elaborados pela equipe por tr\u00e1s da iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o 13 mulheres, entre pedagogas, psic\u00f3logas, educadoras e comunicadoras, assim como mulheres que contribuem com relatos de suas experi\u00eancias pessoais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de trocar mensagens no grupo, as participantes podem escrever para Ana &#8220;no privado&#8221; quando o assunto pede discri\u00e7\u00e3o, e recebem respostas elaboradas pela equipe.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o trabalho n\u00e3o \u00e9 apenas virtual. De tempos em tempos, as participantes \u2013 todas mulheres, e j\u00e1 em idade adulta \u2013 s\u00e3o convidadas para rodas de conversas com a equipe por tr\u00e1s do projeto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os encontros d\u00e3o espa\u00e7o a d\u00favidas, gargalhadas, choro e desabafos.<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil acompanhou um desses eventos, que reuniu cerca de 15 mulheres em um domingo de sol quente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na entrada do Parque Anal\u00e2ndia, barricadas de concreto fechavam a rua de acesso \u00e0 comunidade, demarcando o territ\u00f3rio controlado pelo Comando Vermelho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Traficantes com fuzis armavam um ponto de venda de drogas na rua principal, perto da quadra esportiva da comunidade. Na camiseta de um deles, a frase: &#8220;Que Deus proteja minhas costas porque o resto eu bato de frente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O encontro foi realizado no galp\u00e3o de uma ONG local, a H\u00e1 Esperan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto um pagode alto tocava na casa vizinha, a equipe organizava cadeiras de pl\u00e1stico brancas em c\u00edrculo e punha a mesa do lanche \u2013 bolo, refrigerante e misto-quente no p\u00e3o franc\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres foram chegando, a maioria de shorts, chinelos e blusas sem manga para aplacar o calor.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema do dia era autocuidado. O encontro come\u00e7ou com uma medita\u00e7\u00e3o conduzida por uma psic\u00f3loga e uma conversa sobre a import\u00e2ncia de se cuidar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todas olhavam atentas enquanto a pedagoga Tayana Le\u00f4ncio falava sobre o fato de a maioria ali trabalhar em&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cy5lqdv1q35o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escala 6&#215;1<\/a>, e sobre seus corpos estarem sempre &#8220;na linha de frente&#8221;, seja no mercado de trabalho ou nos servi\u00e7os dom\u00e9sticos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O nosso corpo racializado est\u00e1 sempre cuidando do outro, sempre servindo a algu\u00e9m. Nossas ancestrais tamb\u00e9m estiveram nesse lugar&#8221;, disse Tayana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na nossa gera\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante a gente resgatar e reverter esse cuidado para a gente, para o nosso corpo&#8221;, afirmou, enfatizando a import\u00e2ncia de mulheres pretas se olharem no espelho e amarem o que v\u00eaem, em uma sociedade que padroniza corpos e n\u00e3o valoriza o biotipo negro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A Ana Autoestima fala com mulheres que trabalham de segunda a segunda, 12 horas por dia, e quando chegam em casa ainda t\u00eam que cuidar da casa e dos filhos, vivendo em condi\u00e7\u00f5es de extrema viol\u00eancia social&#8221;, diz Tayana \u00e0 BBC News Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nesse contexto, o autocuidado fica esquecido, ou essa mulher sequer teve oportunidade na vida de pensar a respeito. Porque desde muito nova, sempre esteve envolvida no cuidado com o outro&#8221;, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Aprender a dizer &#8216;n\u00e3o&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Evelyn Cristina dos Santos tem 36 anos e acabou de come\u00e7ar um novo emprego como auxiliar de servi\u00e7os gerais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e de cinco filhos comemora a carteira de trabalho assinada, mas a rotina \u00e9 puxada: ela trabalha das 7h \u00e0s 19h, de segunda a sexta-feira.<\/p>\n\n\n\n<p>Evelyn \u00e9 uma colaboradora-chave do projeto dentro da comunidade, onde mora desde os dez anos. Ela ajudou a conceber a Ana Autoestima desde o princ\u00edpio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para o projeto dar certo, era essencial que as mulheres se identificassem com a personagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Ana foi criada como uma mulher negra, empoderada e com uma fala acess\u00edvel, sempre se comunicando por \u00e1udio al\u00e9m de textos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sempre tivemos uma preocupa\u00e7\u00e3o de que ela n\u00e3o falasse apenas por mensagens escritas, porque aqui h\u00e1 muitas idosas e mulheres que n\u00e3o sabem ler&#8221;, diz Evelyn.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-opt-id=2037095953  data-opt-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/0928\/live\/52ddbfc0-3d8e-11f0-9347-e35545653993.jpg.webp\"  decoding=\"async\" src=\"data:image/svg+xml,%3Csvg%20viewBox%3D%220%200%20100%%20100%%22%20width%3D%22100%%22%20height%3D%22100%%22%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%3E%3Crect%20width%3D%22100%%22%20height%3D%22100%%22%20fill%3D%22transparent%22%2F%3E%3C%2Fsvg%3E\" alt=\"Evelyn sorrindo em p\u00e1tio de casa, com beb\u00ea no colo\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Moradora do Parque Anal\u00e2ndia, Evelyn dos Santos (na foto, com a ca\u00e7ula Elisa) ajudou a desenvolver a personagem Ana Autoestima<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Como para outras mulheres da comunidade, a chegada do projeto de educa\u00e7\u00e3o sexual trouxe mudan\u00e7as importantes para Evelyn.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu me casei muitas vezes e tive muitos casamentos abusivos, onde sofri muito, apanhei, fui muito tra\u00edda&#8221;, conta a auxiliar de servi\u00e7os gerais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Um deles dizia que minhas roupas marcavam o corpo, eram indecentes, que eu n\u00e3o devia usar brinco, batom&#8221;, lembra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando eu conheci a Ana, entendi que a gente n\u00e3o est\u00e1 sendo vulgar nem querendo chamar aten\u00e7\u00e3o, mas sim se valorizando, n\u00e9? Se mantendo viva, feliz consigo mesma&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Na comunidade, diz Evelyn, muitas mulheres s\u00e3o coagidas a fazerem o que n\u00e3o querem.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A Ana tem um papel muito importante na minha vida, me fez descobrir quem eu sou. E que eu n\u00e3o preciso fazer s\u00f3 aquilo que o meu companheiro quer, eu posso fazer tamb\u00e9m o que eu quero. Eu posso dizer n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vulva de pel\u00facia<\/h2>\n\n\n\n<p>Na roda de conversas, os \u00e2nimos se afloram quando chega a hora de distribuir para as mulheres um kit com camisinhas (masculina e feminina), lubrificante e um pequeno espelho para incentiv\u00e1-las a conhecer melhor suas anatomias \u00edntimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Laura Ramos Tom\u00e1s leva para o centro da roda uma vulva de pel\u00facia laranja do tamanho de uma bola de basquete e indica cada parte \u2013 os l\u00e1bios, a entrada do canal vaginal e o clit\u00f3ris com suas ramifica\u00e7\u00f5es, ensinando que este \u00e9 o \u00fanico \u00f3rg\u00e3o do corpo que serve apenas para gerar prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o sabia que a minha perereca tinha tanta parte, tinha tanta camada!&#8221;, diz Ta\u00eds \u00e0 BBC News Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu juro para voc\u00ea. Para mim, era um neg\u00f3cio que eu fazia xixi, menstruava e botava filho para fora. N\u00e3o, \u00e9 um neg\u00f3cio complexo&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A vulva de pel\u00facia \u00e9 um de diversos objetos que a equipe usa nas rodas de conversa para &#8220;tornar tudo um pouco menos intimidador&#8221;, explica Laura.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Usamos acess\u00f3rios para quebrar o gelo e ajud\u00e1-las a visualizar coisas que podem n\u00e3o ter visto nem ter familiaridade em seus pr\u00f3prios corpos&#8221;, conta a educadora sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitas vezes, vemos a imagem de um p\u00eanis grafitada em muros, ou crian\u00e7as o desenham na escola. Mas vulvas s\u00e3o subrepresentadas neste mundo, e vulvas s\u00e3o lindas. Se estamos desenhando p\u00eanis, deveria haver o mesmo n\u00famero de vulvas em nossos muros&#8221;, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>O evento termina com um sorteio: tr\u00eas vibradores s\u00e3o presenteados \u00e0s mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo \u00e9 cor de rosa claro, no formato de um golfinho. As mulheres caem na risada quando o nome de Diana Alves \u00e9 anunciado. \u00c9 a terceira vez que ela ganha um vibrador em sorteios do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o sabia que se eu usasse algum brinquedinho, eu ia ter o mesmo prazer que eu tinha com um homem&#8221;, conta Diana \u00e0 BBC News Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ap\u00f3s conhecer, eu me interessei e comprei um. S\u00f3 que o brinquedinho era meio ruinzinho. A\u00ed eu ganhei um da Ana e foi maravilhoso. A\u00ed eu ganhei outro, e o neg\u00f3cio ficou mais intenso. Eu at\u00e9 esque\u00e7o que tenho um namorado \u00e0s vezes&#8221;, brinca ela, que tem 33 anos e trabalha como revendedora de revistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o guarda segredo com o namorado, e contou a ele: &#8220;Arrumei um brinquedinho que faz tudo que voc\u00ea faz. S\u00f3 n\u00e3o engravida e n\u00e3o me traz doen\u00e7a nenhuma.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-opt-id=1543428394  data-opt-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/4421\/live\/fa1cf120-3d89-11f0-8fa6-57e840e6fcdb.jpg.webp\"  decoding=\"async\" src=\"data:image/svg+xml,%3Csvg%20viewBox%3D%220%200%20100%%20100%%22%20width%3D%22100%%22%20height%3D%22100%%22%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%3E%3Crect%20width%3D%22100%%22%20height%3D%22100%%22%20fill%3D%22transparent%22%2F%3E%3C%2Fsvg%3E\" alt=\"Mulher sorrindo em rua, com outras pessoas atr\u00e1s\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Diana Alves teve sorte em sorteios de vibradores realizados pelo projeto<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Grito de guerra&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>O evento termina alegre e animado. Do lado de fora, as mulheres se re\u00fanem em frente ao grafite da personagem Ana Autoestima para uma foto coletiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A rep\u00f3rter \u00e9 designada para tirar o retrato e pergunta, antes de fazer o clique: &#8220;Qual \u00e9 o grito de guerra?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vulva!&#8221;, todas gritam em un\u00edssono.<\/p>\n\n\n\n<p>Laura Ramos Tom\u00e1s afirma que o projeto tem mostrado que quebrar barreiras para falar de sexo tem efeitos que v\u00e3o muito al\u00e9m das quatro paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando as mulheres envolvidas no projeto praticam o prazer, e entendem que \u00e9 um direito, isso permite que elas se sintam fortalecidas em outras \u00e1reas de suas vidas&#8230; E se encorajem para ter uma conversa dif\u00edcil com o parceiro sobre a carga de trabalho em casa, ou pedir ajuda para escrever um curr\u00edculo atr\u00e1s de um emprego, ou se alfabetizar aos 45 anos&#8221;, exemplifica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O valor do que fazemos \u00e9 lembrar \u00e0s mulheres que elas s\u00e3o as mais preparadas e t\u00eam o que \u00e9 preciso para seguir em frente em suas vidas.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ta\u00eds colocou sete filhos no mundo, mas s\u00f3 mais tarde passou a conhecer o&nbsp;prazer sexual. 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