Nikolas após prisão de primo: “Quem é preso com drogas merece cadeia”

Afirmação foi feita após primo do deputado, Glaycon Raniere, ter sido preso com 30,2 kg de maconha, em Minas Gerais
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) usou as redes sociais, neste domingo (1º), para comentar o fato de o primo dele, Glaycon Raniere de Oliveira Fernandes, ter sido preso transportando 30,2 kg de maconha, em Uberlândia (MG).
“Pra mim não é uma situação que merece que eu perca meu tempo, até porque não é algo que me envolve. Se qualquer pessoa, seja relacionada a mim de alguma forma ou não, cometer crime, ela tem que pagar por isso. É bem simples”, escreveu.
Segundo Nikolas, a situação tem sido usada para desgastar sua imagem. “E mais uma vez sem sucesso”, completou.
“Quem é preso com drogas merece cadeia assim como os rachadores e outros corruptos que inclusive estão soltos por aí”, finalizou.
Prisão
Glaycon Raniere de Oliveira Fernandes foi detido em flagrante na saída da cidade, que fica no Triângulo Mineiro. Segundo a Polícia Federal, a droga seria levada para Nova Serrana, interior de Minas Gerais.
Além da maconha, a polícia também encontrou uma porção de cocaína com Glaycon, segundo laudos preliminares anexados ao inquérito. Glaycon estava acompanhado de outra pessoa no veículo.
Glaycon é filho de Enéas Fernandes, ex-candidato a prefeito de Nova Serrana pelo Partido Liberal e tio do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Os dois homens foram levados à delegacia. Um deles foi ouvido e liberado. Já Glaycon permanece preso e foi encaminhado ao sistema penitenciário, onde está à disposição da Justiça.
Fátima renunciará em março e prepara semestre decisivo antes da corrida ao Senado

A governadora Fátima Bezerra já definiu a data em que renunciará ao governo do Rio Grande do Norte: será em 31 de março de 2026. Nessa data, ela entregará à Assembleia Legislativa sua carta de renúncia, e o vice-governador Walter Alves assumirá o cargo. A renúncia faz parte do projeto político da governadora, que pretende disputar uma vaga no Senado, dentro de uma estratégia construída pelo Partido dos Trabalhadores.
Até lá, Fátima traçou um roteiro detalhado com tudo que precisa ser realizado. O foco está concentrado no segundo semestre de 2025. Para o núcleo mais próximo da governadora, os próximos seis meses serão o ponto alto dos seis anos de gestão.
Está sendo preparada uma agenda intensa de entregas para o segundo semestre. Quase nada será deixado para 2026. Os últimos três meses de governo serão reservados para uma espécie de “turnê de prestação de contas”, percorrendo o estado para apresentar os feitos da gestão. Tudo que for essencial deverá acontecer entre julho e dezembro deste ano.
Nesse período, Fátima pretende iniciar a duplicação da BR-304, concluir os Institutos Estaduais de Ensino, entregar os 2 mil km de estradas recuperadas, concluir projetos de barragens e reservatórios, ampliar o abastecimento de água em Mossoró e renovar a rede hospitalar estadual.
Na frente política, a governadora também quer consolidar o nome de Cadu Xavier como seu candidato à sucessão, evitando qualquer tentativa de substituição. Além disso, buscará fechar com Zenaide Maia a dobradinha ao Senado. No âmbito federal, o PT tem como meta eleger três deputados federais, e Fátima está empenhada em montar uma nominata competitiva para alcançar esse objetivo.
O dilema de prolongar a vida dos pets: ‘Foi por amor que decidimos deixar nossa cachorrinha partir’
31 maio 2025

Quimioterapia, hemodiálise, cirurgias cardíacas, fisioterapia, acupuntura, dietas formuladas sob medida — o universo dos cuidados veterinários não para de crescer. E os pets vivem mais do que nunca.
A expectativa de vida dos cães quase duplicou nas últimas quatro décadas, e os gatos domésticos vivem hoje o dobro do que felinos selvagens, segundo levantamento de 2023 promovida pela Allianz Global Investors.
Entre os motivos para esse avanço, estão a melhora na qualidade da alimentação, cuidados semelhantes aos humanos, crescimento dos diagnósticos preventivos e maior conscientização sobre visitas regulares ao veterinário, de acordo com a pesquisa.
Não é raro hoje encontrar cachorros ou gatosultrapassando os 15 ou até 20 anos.
Mas a longevidade estendida também levanta uma questão delicada: estamos realmente garantindo qualidade de vida para esses animais ou prolongando o inevitável às custas do bem-estar?
Especialistas e tutores se dividem entre o amor incondicional e os limites éticos do cuidado veterinário moderno.
‘Iria até as últimas consequências para salvá-la’
O professor Manoel Pereira de Araújo, de 47 anos, enfrentou o dilema de até onde vale a pena insistir em tratamentos complexos — e caros — para prolongar a vida de um animal de estimação não apenas uma, mas duas vezes nos últimos anos.
Há cerca de 14 anos, ele e a agora ex-mulher ganharam de presente um filhote de pug e, logo depois, decidiram adotar outro cãozinho da mesma ninhada. Foi assim que acabaram com a dupla de irmãos, que decidiram chamar de Haron e Amy.
Em 2017, Amy foi diagnosticada com leucemia e ficou 13 dias internada em um hospital veterinário em São Paulo. Durante esse período, Manoel e a esposa passaram muitas noites dirigindo pela cidade em busca de bolsas de plaquetas para transfusão em hospitais veterinários, já que a clínica em que a cadela estava nem sempre tinha estoques suficientes.
“Naquele momento decidi que iria até as últimas consequências para tentar salvá-la”, contou o paraibano natural de Princesa Isabel, no interior do Estado, à BBC Brasil. “Quando a Amy piorou, a veterinária sugeriu que fizéssemos a eutanásia, mas não aceitamos e continuamos insistimos nos tratamentos disponíveis.”
Mesmo com todos os cuidados veterinários, Amy não sobreviveu. Além de todo o sofrimento com a perda, Manoel também teve que lidar com uma conta de R$ 30 mil deixada no hospital em que a cadela ficou internada. “Tivemos que vender um carro para conseguir pagar”, conta ele.

Em novembro passado, foi a vez de Haron adoecer. O pug convivia com sérias alergias há anos e, com 14 anos, precisava de visitas constantes ao veterinário e medicamentos manipulados: “Só com os remédios gastávamos mais ou menos R$ 800 por mês. Isso sem contar alimentação e o preços dos exames e consultas”, diz Manoel.
Aos poucos, os sinais vitais do animal começaram a ficar mais fracos, ele parou de se alimentar e os tutores passaram a notar manchas de sangue em suas fezes e vômito. Os exames apontavam para uma cirrose medicamentosa.
“A veterinária me explicou que ele já não tinha como se recuperar e que o sofrimento dele poderia durar horas, dias ou até uma semana, então a eutanásia era a melhor opção”, conta. “Depois de muita resistência, acabei aceitando.”
“Mas não foi nada fácil e até hoje penso que teria dificuldade em tomar essa decisão novamente, caso tenha outro pet.”
‘Estou preparada para perder meu pai, mas não meu cão’
A oncologista veterinária Juliana Cirillo afirma que casos como o de Manoel, Amy e Haron tem se tornado cada vez mais comuns.
“A relação do homem com os pets mudou muito, hoje eu diria que hoje 30% dos meus clientes se referem a eles mesmos como pais e mães do seu pet”, diz.
“Já ouvi frases como: ‘Meu cachorro me traz mais felicidade que meu filho’ e ‘Estou preparada para perder meu pai, mas não estou preparada para perder meu cão.'”
O Brasil é o 3° país do mundo com mais animais de estimação, com 149 milhões, atrás apenas de China e Estados Unidos. De todos os brasileiros, 94% já tiveram algum pet, segundo um estudo da Quaest divulgado em 2024.
A pesquisa também questionou os tutores sobre a importância de seus bichos em suas vidas e 93% disseram que seus pets são membros da família. Pouco mais da metade (58%) afirmaram comemorar os aniversários dos seus companheiros de quatro patas.
Entre os entrevistados, 94% dos tutores ainda afirmam que a sua saúde mental melhorou por ter um animal de estimação, e 90% avaliaram o mesmo em relação à sua saúde como um todo.
A pesquisa também mostrou que a forma como os pets são tratados atualmente por seus donos impacta diretamente nos gastos com alimentação, saúde e outros cuidados. Entre os entrevistados, 55% gastam até R$ 300 por mês. Entretanto, 10% dos tutores desembolsam mais de R$ 1.000 mensalmente com seus pets.

Juliana Cirillo atende pacientes em dois hospitais de alto padrão na capital paulista.
Segundo ela, casos em que os tutores demonstram dificuldade para entender a necessidade da eutanásia ou se mostram apegados demais para tomar essa decisão têm se tornado mais comuns.
“Há uma resistência muito grande entre alguns tutores em aceitar a morte do animal”, diz. “Já indiquei que alguns procurassem ajuda psicológica.”
Não é raro, diz a veterinária, que clientes cujos animais receberam um diagnóstico negativo ou recomendação de eutanásia procurem uma “segunda, terceira ou quarta” opinião de outros profissionais porque não estão preparados para perder seu pet.
“Conheço muitos colegas da área e nos falamos. Então ficamos sabendo quando um cliente nosso insiste em procurar outras saídas”, diz.
Ela defende, porém, a importância de saber a hora de parar, tanto quando não há perspectiva de melhora ou como quando o sofrimento atinge níveis altos demais para os padrões éticos veterinários.
“Não é sobre quanto tempo o pet vai viver, mas com que qualidade”, afirma.
Por isso, diz a veterinária, é sua obrigação como profissional estabelecer um diálogo saudável, honesto e caloroso com os tutores, de forma que eles possam se sentir acolhidos, mas ao mesmo tempo priorizar o bem-estar de seus animais.
“Eu entendo os tutores, porque também tenho pets e sou alucinada por eles. Perdi minha cadela há três meses e tive medo de como reagiria. A dor foi imensa.”
Tecnologia de ponta à disposição
Além da transformação afetiva na relação entre humanos e seus animais, os avanços na medicina veterinária e o crescimento da indústria de cuidados intensivos também contribuem para tornar os limites entre tratamento e prolongamento artificial da vida cada vez mais difusos, dizem os especialistas.
Uma clínica oncológica de uma área nobre na zona sul de São Paulo, por exemplo, oferece tratamentos tradicionais como cirurgia e quimioterapia, mas também procedimentos de ponta como a biópsia transcirúrgica, uma técnica que permite realizar diagnósticos sobre tecidos ou lesões cancerígenas ainda durante a cirurgia.
“Esse recurso é usado na medicina humana há mais de cem anos, mas passamos a oferecer para os animais aqui no Brasil há cerca de 15”, explica Marcelo Monte Mor, veterinário da clínica e físico especializado em técnicas de quimioterapia de última geração.
O centro veterinário na capital paulista também disponibiliza a eletroquimioterapia (ECT), que combina pulsos elétricos com quimioterapia para aumentar a absorção de medicamentos pelas células cancerígenas, a terapia-alvo, focada em estruturas específicas das células cancerígenas, e a quimioterapia metronômica, que usa doses baixas de forma contínua para evitar efeitos colaterais severos, além da imunoterapia.
Monte Mor ressalta, porém, que os tratamentos não devem ser aplicados em pacientes em que já se sabe que não há perspectiva de melhora ou que perdem muita qualidade de vida diante dos procedimentos.
“Nosso lema é: tempo de vida com qualidade. Não adianta prolongar a vida a qualquer custo.”
O veterinário lembra que o custo dos tratamentos podem ser bastante altos também – e que boa parte da população não pode pagar. “Cada sessão de quimioterapia pode custar entre R$ 500 e R$1.000, na média”, diz. “Alguns pacientes precisam fazer uma sessão por mês, mas outros toda semana.”
Ainda assim, diz o veterinário, lidar com tutores que têm dificuldade de aceitar a perda de seu animal de estimação ou se recusam a aceitar a interrupção do tratamento faz parte do dia a dia de sua profissão.
“Quando um tutor procura um oncologista, muitas vezes já está preparado [para perder seu pet], o que torna a conversa sobre parar o tratamento ou optar pela eutanásia mais fácil”, diz. “Mas já passei por casos em que os tutores não aceitaram e preferiram que o pet morresse em casa, dormindo, por exemplo.”

Svenja Springer, professora da Universidade de Viena e especialista em ética veterinária, ressalta a importância dos avanços em pesquisa e tecnologia, tanto para os direitos animais quanto para os donos de pets. Mas também destaca que é importante saber quando parar.
“A veterinária é uma ciência aplicada como a medicina humana e, claro, há muito interesse em desenvolvê-la mais”, diz. “Mas a pergunta central hoje não é mais ‘podemos fazer isso?’, mas ‘devemos fazer?'”.
“A linha ética é cruzada quando fica claro que os tratamentos não são mais pelo bem do animal, mas apenas para atender ao desejo do tutor”, afirma.
Springer liderou um estudo ao lado de outros profissionais da área que entrevistou mais de 2 mil donos de cachorros e gatos no Reino Unido, Áustria e Dinamarca. Quase 60% dos tutores disseram querer o mesmo nível de tratamento que existe na medicina humana para seus pets.
A pesquisa ainda mostrou que, quanto maior o vínculo emocional com o animal de estimação, maior é a disposição do dono em aceitar tratamentos veterinários caros ou prolongados.
“Embora muitas vezes façamos paralelos entre a medicina humana e a veterinária, porque temos quase as mesmas ferramentas de diagnóstico e tratamentos médicos atualmente, são duas coisas distintas”, ressalta.
“A medicina humana lida com um paciente que pode expressar dor ou vontade. Na veterinária, tudo é por procuração.”
‘Eutanásia pode ser o maior ato de amor’
Há ainda, entre a medicina humana e a veterinária, uma diferença importante na forma como os momentos finais de um paciente terminal são tratados.
Na veterinária, a eutanásia é considerada um procedimento padrão, além de ser amplamente aceita no mundo. Já na medicina humana, a morte assistida é permitida apenas em alguns países e sob condições rigorosas.
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) prevê a eutanásia animal em seu código de ética e considera o procedimento uma medida humanitária, indicada quando há sofrimento irreversível do animal, ausência de possibilidade terapêutica ou risco à saúde pública,
A organização também estabelece normas e princípios básicos para a realização da eutanásia no país.
O método mais utilizado e indicado para animais de pequeno porte atualmente envolve a administração de medicamentos injetáveis. Primeiro, o animal é completamente anestesiado, de forma que não sinta nada durante o procedimento. Posteriormente, o profissional qualificado aplica uma substância que causa a parada cardíaca.
“A decisão da eutanásia pode ser o maior ato de amor, de desprendimento, que a pessoa pode fazer”, diz Ingrid Atayde, médica-veterinária, psicóloga e chefe do Setor de Comissões Técnicas do CFMV.
“Sempre tento deixar claro para os tutores que tomar uma decisão pela eutanásia em casos em que é necessária é uma forma de pensar no bem-estar do animal.”
Atayde afirma ainda que já há no país clínicas e profissionais especializados em tratamentos paliativos, que tornam o fim da vida de um animal muito mais confortável.
“Mas é preciso lembrar que tudo isso tem um custo e infelizmente ainda não temos um serviço de saúde pública animal”, diz.
Para a cearense Aline Fernandes de Oliveira, de 28 anos, a ideia de submeter qualquer um dos seus animais de estimação à eutanásia era “impensável”. Mas quando a cirurgiã dentista viu sua cadela Katlyn, uma vira-lata resgatada da rua e que havia se tornado parte da família, sofrendo os efeitos de um câncer agressivo no fígado, sua visão foi mudando aos poucos.
“Para mim, isso era uma coisa absurda. Nunca pensei em fazer. Mas quando a gente viu que ela estava sofrendo e que já não tinha mais qualidade de vida, a decisão passou a fazer sentido”, conta à BBC News Brasil.

Aline estima que o gasto somou mais de R$ 35 mil com cirurgias, internações, medicamentos e quimioterapia. Mas mesmo com todos os cuidados, o quadro de Katlyn se tornou irreversível. A dor aumentava apesar dos remédios, incluindo morfina.
“Ela só ficava quietinha no canto. Um dia acordamos e ela estava toda durinha, com o olhar arregalado. Demos a medicação mais forte e nada adiantou”, conta a cearense moradora de Fortaleza.
Por fim, a decisão de realizar a eutanásia foi tomada em conjunto com a mãe, o irmão e os veterinários. “Foi por amor que a gente manteve ela com a gente. E foi pelo mesmo amor que decidimos deixá-la ir.”
Impacto nos veterinários
Mas não são apenas os tutores que sofrem com tudo que envolve a decisão sobre a eutanásia.
Cada vez mais veterinários têm relatado enfrentar dilemas éticos e emocionais quando tutores optam por prolongar o sofrimento de seus animais de estimação, recusando a eutanásia mesmo diante de quadros irreversíveis, dizem pesquisadores da área.
Em momentos em que o paciente está sofrendo e os tutores não aceitam parar o tratamento ou optar pela eutanásia, “sinto que sou eu que não estou conseguindo convencer a família de que aquilo não é o melhor para o pet”, afirma o veterinário Marcelo Monte Mor.
“São momentos muito difíceis. Eu me lembro especificamente de um paciente que, antes de adoecer, pesava 23 kg, mas no final da vida estava com 9 kg. Já havia passado muito do ponto em que recomendamos parar…”, diz. “O paciente já era praticamente um cadáver”, lamenta.
Em um estudo qualitativo conduzido com 20 profissionais da área em diferentes países, a professora Svenja Springer, da Universidade de Viena, ouviu que, na maioria dos casos, ver um paciente falecer após uma eutanásia não gera mais sofrimento ou dilemas para os veterinários do que uma morte natural.
“Os conflitos reais aparecem quando é preciso convencer o dono da necessidade do procedimento ou quando eles optam pelo tratamento excessivo”, diz Springer.
“Veterinários enfrentam um duplo fardo: cuidar do animal e do tutor. É emocionalmente desgastante. Por isso, hoje estudamos estratégias de limites e resiliência emocional para profissionais da área.”
Como saber a hora de parar?
A veterinária e psicóloga Ingrid Atayde, do CFMV, compartilhou com a BBC News Brasil algumas orientações que podem ajudar tutores a saber que chegou a hora de considerar a eutanásia, pensando no bem-estar do pet.
Segundo a profissional, vale a pena observar se seu bicho de estimação está tendo uma vida digna com aquilo que você pode prover.
Isto é, além de acesso a cuidados básicos como abrigo, água e alimentos, seu pet vive livre de dor e sofrimento? Ainda tem a oportunidade de expressar seus comportamentos naturais, como brincar, explorar e interagir com outros animais e com humanos? Vive livre de medo e estresse?
Se a resposta para uma ou mais dessas perguntas for não, pode ser que o animal esteja perdendo qualidade de vida.
“Choro constante, tremores, dificuldade de locomoção, ficar deitado sem reagir, olhar fixo e arregalado, feridas por decúbito (ficar deitado por muito tempo) — são sinais de que o sofrimento já ultrapassou os limites”, exemplifica Atayde.
“Temos tecnologias e medicamentos para dar conforto e aliviar dor. Mas se nem isso está mais funcionando, é hora de avaliar.”
A chefe do Setor de Comissões Técnicas do CFMV também recomenda ficar atento a mudanças nos comportamentos habituais do pet. “O que faz o seu cachorro ser quem ele é? Alguns só precisam estar perto da família. Outros precisam correr, brincar.”
Ela lembra ainda que os animais vivem “o aqui e agora”. Ou seja, o desconforto ou a dor do presente são muito mais latentes em um cachorro ou um gato do que a expectativa pelos eventos futuros.

Atayde afirma, porém, que toda decisão deve ser tomada em conjunto com um médico veterinário de confiança.
“O papel do veterinário não é convencer a fazer ou não a eutanásia, mas apresentar as opções terapêuticas”, diz. “E a decisão é caso a caso. É preciso dar espaço para que a pessoa fale, sem julgamento.”
Especialistas também sugerem ações simples que podem atenuar o sofrimento dos tutores e dos pets antes da eutanásia, como dar ao animal o seu melhor último dia – ou dias –, estar ao lado do bicho de estimação no momento da injeção final ou pedir ao veterinário para realizar o procedimento em casa, onde todos tendem a sentir menos ansiedade.
Por fim, Atayde também aconselha que donos que estejam sofrendo com essa decisão ou com o falecimento de um animal de estimação procurem ajuda psicológica.
Afinal, quem inventou o avião? A resposta provavelmente não é a que você pensou
1 junho 2025, 06:19 -03

- Camilla Veras Mota
- Da BBC News Brasil em São Paulo
O brasileiro Alberto Santos Dumont fez o primeiro voo da história homologado pela Federação Aeronáutica Internacional.
Em 12 de novembro de 1906, em frente a uma multidão em Paris, ele cruzou o campo de Bagatelle a bordo do 14-bis, confirmando que uma máquina mais pesada que o ar era de fato capaz de voar.
A essa altura ele já era celebrado como pioneiro da aviação na Europa. Vivia cruzando Paris de balão, tinha ganhado um prêmio por ter voado com um dirigível em volta da torre Eiffel e estampado capa de jornal.
Nada mais natural, então, do que dizer que foi ele que inventou o avião, certo? Não é tão simples assim.
A polêmica já dura mais de um século: o Brasil considera Santos Dumont o pai da aviação, enquanto os Estados Unidos defendem — e espalham para o mundo — que o título é dos americanos Orville e Wilbur Wright, os irmãos Wright.
Quem tem razão? A BBC News Brasil fez essa pergunta para oito especialistas em aviação de quatro países, que explicaram os argumentos dos dois lados — e acabaram levando a reportagem a uma direção inesperada.


Santos Dumont: o primeiro voo público
A capital francesa não foi palco do voo do 14-bis por acaso. Paris naquela época era o centro pulsante da modernidade que ditava o ritmo do fim do século 19 e início do século 20.
Tinha boas escolas de engenharia e concentrava capital suficiente para financiar pesquisas em metalurgia, mecânica, física, química.
Com o desenvolvimento de novos tipos de material e de motores cada vez mais potentes, a sensação naquela época era de que seria questão de tempo até alguém conseguisse voar com uma máquina mais pesada que o ar, diz o historiador Jean-Pierre Blay.
Foi essa atmosfera que levou Santos Dumont a Paris em 1892. O brasileiro sempre foi fascinado por máquinas voadoras, e resolveu deixar o Brasil e cruzar o Atlântico depois de receber um adiantamento da herança pelo pai, que era filho de um joalheiro francês e havia feito fortuna em Minas Gerais plantando café.
Bolsonaro volta ao RN para Seminário do Rota 22; confira programação completa


O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) voltará ao Rio Grande do Norte entre os dias 12, 13 e 14 de junho. Na programação, o maior líder popular do país agradecerá aos profissionais de saúde que lhe atenderam no Estado e participará do projeto Rota 22, em Seminário que será realizado em Mossoró, região Oeste.
Além disso, Bolsonaro também terá um encontro com digitais influencers, conhecerá a engorda de Ponta Negra – que foi construída com recursos liberados em sua gestão -, e visitará a Barragem de Oiticica, que teve a maior parte das suas obras concluídas também na gestão do ex-presidente. Confira abaixo a programação completa.
ROTA 22 PL RN – PRESIDENTE BOLSONARO NO RN
Dia 12/06
11h – Chegada no Aeroporto de São Gonçalo do Amarante
12h – Almoço com digital influencers
14h30 – Entrega de títulos de cidadania natalense e norte-rio-grandense
Local: Câmara Municipal
16h – Engorda de Ponta Negra
Local: Próximo ao Morro do Careca
Dia 13/06
7h – Visita ao Hospital Rio Grande
9h30 – Tangará
10h30 – Santa Cruz: Visita ao Hospital Municipal e ao Santuário de Santa Rita de Cássia
13h – Acari: Visita a Cidade da Moda
15h – Jucurutu: Barragem de Oiticica
19h – Mossoró Cidade Junina
Dia 14/06
7h – Visita ao Anel Viário e entrega de título de Cidadão Mossoroense
8h – Seminário Rota 22
Local – Garbos Hotel
14h30 – Aeroporto de São Gonçalo do Amarante
Os influencers que ganham fama exibindo animais selvagens como pets

O influenciador digital Agenor Tupinambá, de 25 anos, ganhou a atenção do país, em 2023, quando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)decidiu apreender uma capivara criada por ele como pet, a Filó.
A apreensão aconteceu à época porque, segundo o instituto, o animal estaria sendo exibido indevidamente nas redes sociais e criado em condições inadequadas.
Para o Ibama, ele “adquiriu seguidores expondo sistematicamente a fauna silvestre em seus perfis de forma irregular, sem licença ambiental para a atividade.”
Tupinambá abriu um processo em que requereu a guarda da capivara, e ganhou. Filó continua com ele até hoje.
O juiz disse, na decisão, que o animal “vive em perfeita e respeitosa simbiose com a floresta” e que “não é a Filó que mora na casa de Agenor, é o autor (Agenor) que vive na floresta.”
Advogados do influenciador apresentaram a tese de que ele “jamais buscou a fama”, que “seus seguidores foram chegando aos poucos” e que a explosão de seguidores teria ocorrido depois de um vídeo viral com Filó, “gerando o efeito natural de ganhos de seguidores e engajamentos.”
O caso catapultou Agenor para além das próprias redes sociais: deu entrevistas a programas de TV e chegou até a ter sua vida amorosa retratada em um texto na revista Caras.
Houve até mesmo a apresentação de um projeto de lei no ano passado, na Câmara dos Deputados, batizado com seu nome, que descriminaliza a posse e criação de animais silvestres não ameaçados de extinção. O projeto aguarda votação na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Passados dois anos desde o episódio, Agenor Tupinambá alcançou a marca de 1,7 milhão de seguidores no Instagram e outros 1,8 milhão no TikTok, mais do que o dobro do número que tinha sido anotado na multa lavrada pelo Ibama, em 2023.
Quem visita a página dele hoje verá mais do que fotos com a capivara ou de sua vida privada.
Tupinambá trancou o curso de graduação em agronomia, se mudou para um sítio no interior do Amazonas e passou a trabalhar somente com internet. Levou Filó junto.
O influenciador diz que faz hoje publicidade de empresas locais e também que assinou contrato anual com um site de apostas.
Tupinambá contou à BBC News Brasil que recebeu algumas críticas depois de ter assinado o contrato (a entrevista pode ser lida aqui).
Ao lado da publicidade mais recente está outra foto, também destacada no feed, de Tupinambá e Filó, com o título “#tbt para matar a saudade de vcs”. Ele afirma, no entanto, que não faz qualquer uso da capivara diretamente nos anúncios.
“Nunca ganhei nada em cima dela, do que eu postava com ela. Depois, meses depois que tudo aconteceu, foi aí que comecei a trabalhar com a internet”, disse.

‘Mensagem equivocada’ para a sociedade
O desfecho do caso da capivara Filó virou uma “mensagem equivocada” para o a sociedade e com repercussão até hoje nas redes sociais, nas palavras de um servidor do Ibama.
A cada nova apreensão de animal silvestre divulgada nas redes são centenas de comentários negativos recebidos.
São situações que envolvem, em geral, outros influenciadores digitais, que divulgam imagens de animais criados como pets, de forma considerada inadequada pelas autoridades.
Segundo a instituição, muitos lucram com essa exposição indevida.
Um levantamento feito pela BBC News Brasil identificou ao menos 175 autos de infração do Ibama que citam nomes de redes sociais na descrição da multa e a exploração da imagem de animais silvestres. Metade foi lavrada nos últimos cinco anos.
Um dispositivo legal de 2008 respalda as ações do órgão: segundo o decreto, é infração ambiental “explorar ou fazer uso comercial de imagem de animal silvestre mantido irregularmente em cativeiro ou em situação de abuso ou maus-tratos”, o que pode levar a multas de até R$ 500 mil.

‘Isso gera curtida’
Para Bruno Campos Ramos, agente ambiental federal e chefe-substituto do Núcleo de Fiscalização da Fauna da Diretoria de Proteção Ambiental do Ibama, as redes sociais se tornaram uma nova fonte de lucro para fomentar o tráfico de animais.
“Quando algum desses influenciadores que tem animal silvestres faz sucesso, a gente até vê a alegria dos traficantes. É como se um artista estivesse divulgando um tênis, um carro. As pessoas assistem e querem ter um também”, diz.
Ele lembrou de um episódio, também de repercussão nacional, em que a modelo e apresentadora Nicole Bahls, que tem quase 30 milhões de seguidores no Instagram, teve filhotes de macaco-prego apreendidos pelo Ibama depois de tê-los exibido nas redes sociais.
As autoridades descobriram, à época, que os documentos que comprovariam a legalidade dos animais eram falsos. O caso desencadeou depois uma operação sobre tráfico de animais silvestres no Rio.
“É uma cadeia em que várias pessoas ganham dinheiro. Tem o advogado, que entra na Justiça nas situações em que apreendemos os animais para conseguir devolução. Tem o influenciador, que ganha repercussão na internet e depois começa com patrocínio de bet [aposta] e monetização de views e curtidas”, diz.
“Naquela época nós apreendemos muitos primatas. Ela [a modelo] teve a consciência de ir às redes sociais e falar que o Ibama fazia um trabalho excelente, coisa que nem sempre todo mundo faz.”
Bahls chegou a dizer, em entrevista à TV Globo, que “não tinha consciência” de que o documento era falsificado.
“A maior lição que eu tive sobre animal silvestre, eu acho que mesmo sendo legalizado, não é legal. Porque incentiva e causa morte e muita dor no meio desses animais”, disse.
Ramos, do Ibama, avalia que há uma incompreensão da sociedade sobre a ação do instituto.
“Recebemos uma crítica muito exacerbada. As pessoas acham que entendem do assunto. Esses não são animais para serem criados como pet.”
Jaguatirica ‘Pituca’: servidores recebem ameaças

Outro exemplo do cabo de guerra entre o Ibama e parte da opinião pública aconteceu em abril deste ano, quando a instituição apreendeu uma jaguatirica no interior do Pará, apelidada de Pituca.
O próprio Ibama divulgou vídeo no Instagram sobre o caso.
Com música ao fundo, uma porta-voz da instituição, Juliana Junqueira, diz que o animal tinha deficiência nutricional crônica, que a pelagem estava sem brilho e com lesões.
“A pessoa que se apossou do animal o exibia nas redes sociais como se tudo estivesse bem, mas a realidade era outra”, escreveu o Ibama na publicação.
“Isso é maus tratos! Isso é tortura! Não curta histórias de animais silvestres nas redes. Atrás de um vídeo bonitinho existe uma história triste de maus-tratos”, diz a instituição.
Em resposta, um dos primeiros comentários em destaque era de que “em momento algum” o animal era maltratado e que a jaguatirica “vivia solta e feliz com a sua dona”.
Outra resposta em letras maiúsculas reafirma que o animal “vivia livre na fazenda, sumia nas matas e voltava quando queria. Agora ela está definhando em uma jaula no Ibama. Quem é que está causando maus tratos?”, escreveu a usuária.
A jaguatirica chegou a um Centro de Triagem de Animais Silvestres, em abril, com o objetivo de, quando possível, ser reintroduzida à natureza “de forma segura”, segundo o Ibama.
Os comentários negativos foram além das redes sociais. A BBC News Brasil teve acesso a uma ameaça por escrito, enviada a servidores do Ibama no Pará.
Um servidor contou à reportagem, sob condição de anonimato, que após a repercussão do caso nas redes houve uma “onda contínua de repúdio às ações do Ibama” e “ameaças de agressão física”, inclusive nas páginas pessoais dos servidores.
“As pessoas têm relação tão grande com esses influencers que se acham amigos dessas pessoas. É um negócio calçado na emoção, não na razão”, disse.
Ele disse que o órgão encaminhou as ameaças para investigação da Polícia Federal.
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A jaguatirica estava em posse de Luciene Candido, que se apresenta nas redes sociais como Luh da Roça. Ela tem mais de 200 mil seguidores no Instagram e quase 500 mil no Facebook.
Pituca era exibida em vídeos ao lado de outros animais e bebendo em uma mamadeira. Algumas publicações chegaram a quase 1 milhão de visualizações.
Em um dos vídeos publicados antes da apreensão, a influenciadora alegou que o animal podia se movimentar como quisesse na fazenda em que vive e que, caso fosse solta na natureza, não sobreviveria.
“Pessoal fica marcando autoridade nos meus vídeos, realmente eu não entendo. Ela não está sendo maltratada, não está passando fome, não vive em apartamento”, disse.
“Acho que o desejo deles [que denunciam] é autoridade vir, recolher ela, levar para um cativeiro e aí depois de um certo tempo, ‘ah, ela treinou, está pronta para ir para o habitat dela’. Aí chega no habitat dela simplesmente ela vai e morre. Possibilidade dela viver aqui em casa é de 20 anos. Lá no habitat dela, é 10. Quem fica questionando, criticando, nem sabe disso.”
O analista ambiental do Ibama Roberto Cabral diz que há uma incompreensão sobre o que acontece após o resgate dos animais.
“Os centros de triagem [para onde os animais vão depois de apreendidos] não são o destino final do animal. É lá que eles serão recuperados, onde se faz uma reabilitação. É como se fosse um hospital. Transitório, para preparar o animal para viver em liberdade.”
A jaguatirica foi encaminhada ao Centro de Triagem de Animais Silvestres, o Cetas. O instituto diz que o animal tinha problemas na pelagem e parasitas, “com destaque para infestação por bicho-de-pé nas patas” e “perda dos caninos do lado esquerdo.”
Ela admitiu, em um vídeo após a apreensão, saber que não tinha autorização para ficar com o animal.
“Estou agoniada, estou nervosa, estou triste. Infelizmente para quem estava torcendo contra, marcando as autoridades para vir busca a Pituca, vieram”, lamentou ela em uma publicação após a apreensão.
“Tá certo que eu não tenho autorização, mas eu salvei a vida dela. Eu não fui na natureza caçar ela pra levar pra casa.”
Candido também passou a divulgar uma série de vídeos críticos à apreensão, inclusive com uso de inteligência artificial, com ilustrações de autoridades prendendo o animal em uma jaula.
A reportagem fez diversas tentativas de entrevista com Luciene Candido por suas redes sociais, mas não obteve resposta. O espaço segue à disposição.
A Meta informou, em nota, que não permite “conteúdos que coordenem, ameacem, apoiem ou admitam atos que causem danos físicos contra animais, e removemos tais conteúdos quando tomamos conhecimento deles em nossas plataformas.”
Disse ainda: “Estamos sempre aprimorando esforços para manter as nossas plataformas seguras e também incentivamos as pessoas a denunciarem conteúdos e contas que acreditem violar nossas políticas através das ferramentas disponíveis dentro dos próprios aplicativos”.
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Youtube: visualizações e lucro milionário

Um artigo científico publicado em 2023 na revista Biological Conservation analisou o fenômeno crescente do uso de animais silvestres nas redes sociais – e o consequente lucro para os criadores de conteúdo.
A pesquisa foi publicada em 2023 e assinada por Antônio F. Carvalho, Igor O. Morais e Thamyrys B. Souza.
Foram analisados cerca de 400 vídeos no Youtube, de 39 países. Os números mostram o grande interesse por esse tipo de conteúdo: somados, os vídeos tiveram quase 1 bilhão de visualizações e 8,5 milhões de curtidas.
Ao menos 114 vídeos foram monetizados por 155 anunciantes, e a média de lucro foi de US$ 10 mil dólares (cerca de R$ 56 mil). Crianças participaram de 61 produções.
Entre os vídeos identificados havia exemplos de crueldade explícita com animais.
No caso do Brasil, no entanto, os maus-tratos aparecem de forma mais ‘velada’, avalia o especialista em combate ao tráfico de animais silvestres da Wildlife Conservation Society (WCS) Brasil, Antonio Carvalho.
“Vimos muitos vídeos de animais na fila de matadouro e gente que comemora isso. No Brasil o que viraliza mais são vídeos de animais fofinhos, que aparentemente não demonstram algum tipo de crueldade. O caso da capivara Filó e da jaguatirica são as cerejas do bolo do que o brasileiro gosta de ver.”
Para o especialista, o primeiro dano causado por esse tipo de conteúdo é o incentivo ao tráfico de animais silvestres. “Se o influencer está ficando famoso, indo para a televisão, quem assiste pensa em fazer a mesma coisa. Consequententemente, muitos outros animais começam a ser buscados, para atrair engajamento e entrar nesse círculo vicioso.”
Embora não haja um sofrimento evidente nesses vídeos virais com animais silvestres criados como pets, ele avalia que há outros danos não mostrados.
“No caso da jaguatirica, que vimos recentemente, a questão nutricional estava muito abalada. Isso é recorrente. O animal, quando não está em vida livre, quando não está naquele nicho em que a espécie está adaptada, tem todo o sistema imunológico modificado. Quantidade de hormônios, de stress, tudo fica mais elevado.”
Carvalho diz que a crítica recorrente ao Ibama acontece porque, à primeira vista, parece que estão tirando um animal doméstico de quem está cuidando, algo distante da realidade. “Os servidores, via de regra, dão a vida para resgatar esses animais.”
O YouTube, em nota, disse que as diretrizes da comunidade “proíbem estritamente vídeos com maus-tratos a animais.”
“É importante ressaltar que vídeos que violam essas diretrizes não são elegíveis para monetização. Se identificarmos uma violação, o vídeo é removido e o canal pode sofrer penalidades, incluindo a desativação da monetização. Investimos continuamente em tecnologia e equipes para aplicar essas políticas globalmente. Encorajamos nossa comunidade a denunciar qualquer conteúdo suspeito, e todas as denúncias são analisadas”, diz a plataforma. Via BBC BRASIL
Vibradores, vulva de pelúcia e WhatsApp: a educadora sexual que defende direito ao prazer de mulheres da periferia

- Júlia Dias Carneiro
- Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil
Taís colocou sete filhos no mundo, mas só mais tarde passou a conhecer o prazer sexual. Diana não sabia que podia ter prazer sem depender do parceiro – até ganhar um vibrador. Evelyn passou por uma série de relacionamentos abusivos até aprender a identificar que aquelas situações não eram aceitáveis.
Moradoras do Parque Analândia, favela no município de São João de Meriti (RJ), na Baixada Fluminense, essas e outras mulheres da comunidade passaram a trilhar um caminho de descobertas e autoconhecimento já em idades maduras, depois de conhecerem a Ana Autoestima.
Ana, como chamam a “amiga”, é negra, corpulenta e estilosa. Usa óculos de aro preto, brincão, cabelo cheio e um blazer amarelo-manga. Seu rosto simpático está grafitado em um muro colorido no Parque Analândia, ao lado de outras figuras femininas com corpos de diferentes padrões e tons de pele.
No topo do painel, a frase: “Nunca deixe algo ou alguém apagar seu brilho”.
Ana Autoestima é uma personagem virtual criada pela empresa social Tabu Tabu para promover, usando grupos de WhatsApp, a educação sexual, o autoconhecimento e o direito ao prazer entre mulheres de periferias.
A iniciativa busca preencher lacunas ligadas às vulnerabilidades que acompanham a pobreza – como maior exposição a violência urbana e doméstica, falta de acesso a saúde e educaçãode qualidade, além da falta de tempo e recursos para se informar.
De acordo com a educadora sexual Laura Ramos Tomás, cocriadora do projeto, mulheres de periferias em geral não buscam informações sobre sexo no sistema de saúde. Isso porque, quando o fazem, encontram abordagens mais ligadas a contracepção e prevenção de doençasdo que saúde sexual.
Muitas vezes, elas também enfrentam estigma e julgamento.
“Quando procuram postos de saúde, ouvem comentários como ‘toma, leve essas camisinhas porque você já tem muitos filhos’, em vez de abordagens mais adequadas a suas realidades”, afirma Laura.
Espanhola radicada no Rio, Laura conta que teve a ideia para a iniciativa depois de realizar uma roda de conversa sobre sexualidade com adolescentes na favela e ser abordada por uma mulher mais velha.
A mulher disse que aquelas informações seriam importantes para ela também, porque ela não tinha acesso a algo do tipo.

“Queríamos dialogar com essas mulheres de uma forma que os serviços de saúde não fazem. Então, viemos até onde elas estão, suas comunidades, e usamos o WhatsApp, o aplicativo mais usado no Brasil.”
O projeto começou a ser gestado em 2021 e teve o primeiro grupo de WhatsApp lançado em 2023, com as mulheres do Parque Analândia.
Hoje, a iniciativa está presente em quatro favelas do Rio, somando cerca de 200 participantes.
Também estão sendo desenvolvidos núcleos em novos bairros, chegando às mulheres através do boca a boca e de parcerias com projetos sociais nas comunidades.
Taís dos Reis Motta, mãe, dona de casa e moradora do Parque Analândia, diz que os ensinamentos da personagem ajudaram a aumentar sua autoestima, a gostar mais do seu corpo e a entender que pode dizer “não” para o sexo quando não quer.
Sua vida sexual também melhorou, diz ela.
“Melhorou e muito! Porque eu nem gostava. Eu fazia por fazer. Por uma vida passada que eu tive, eu nem sabia o que era sentir prazer. Você acredita?”, pergunta.
“Eu, com 35 anos, mãe de sete filhos. E não sabia. Foi através daqui [que aprendi]”, disse Taís à reportagem, durante um encontro do projeto.
“[A Ana Autoestima] me ensinou a ter o meu autoconhecimento, explorar o meu corpo. Hoje eu me sinto muito mais feliz do que antes.”

Virtual e presencial
Nos grupos de WhatsApp, Ana Autoestima posta vídeos simples e divertidos para abordar temas variados sem tabu, sempre começando por “oi, amiga!”.
A personagem ensina sobre sexo seguro e prevenção, mas também sobre prazer, consentimento, direitos e autocuidado.
Os títulos exemplificam a gama de assuntos.
“Nem todo prazer sexual é sexo”, ensina um vídeo.
“Você tem certeza que conhece o clitóris todinho?”, pergunta outro.
“Já ouviu falar da montanha-russa do prazer?”, questiona um terceiro, descrevendo a potência orgástica feminina como um carrinho que sobe uma montanha-russa e precisa de carga progressiva até chegar ao topo.
A personagem fala em uma voz gerada por inteligência artificial (IA), mas seus roteiros são cuidadosamente elaborados pela equipe por trás da iniciativa.
São 13 mulheres, entre pedagogas, psicólogas, educadoras e comunicadoras, assim como mulheres que contribuem com relatos de suas experiências pessoais.
Além de trocar mensagens no grupo, as participantes podem escrever para Ana “no privado” quando o assunto pede discrição, e recebem respostas elaboradas pela equipe.
Mas o trabalho não é apenas virtual. De tempos em tempos, as participantes – todas mulheres, e já em idade adulta – são convidadas para rodas de conversas com a equipe por trás do projeto.
Os encontros dão espaço a dúvidas, gargalhadas, choro e desabafos.
A BBC News Brasil acompanhou um desses eventos, que reuniu cerca de 15 mulheres em um domingo de sol quente.
Na entrada do Parque Analândia, barricadas de concreto fechavam a rua de acesso à comunidade, demarcando o território controlado pelo Comando Vermelho.
Traficantes com fuzis armavam um ponto de venda de drogas na rua principal, perto da quadra esportiva da comunidade. Na camiseta de um deles, a frase: “Que Deus proteja minhas costas porque o resto eu bato de frente.”
O encontro foi realizado no galpão de uma ONG local, a Há Esperança.
Enquanto um pagode alto tocava na casa vizinha, a equipe organizava cadeiras de plástico brancas em círculo e punha a mesa do lanche – bolo, refrigerante e misto-quente no pão francês.
As mulheres foram chegando, a maioria de shorts, chinelos e blusas sem manga para aplacar o calor.
O tema do dia era autocuidado. O encontro começou com uma meditação conduzida por uma psicóloga e uma conversa sobre a importância de se cuidar.
Todas olhavam atentas enquanto a pedagoga Tayana Leôncio falava sobre o fato de a maioria ali trabalhar em escala 6×1, e sobre seus corpos estarem sempre “na linha de frente”, seja no mercado de trabalho ou nos serviços domésticos.
“O nosso corpo racializado está sempre cuidando do outro, sempre servindo a alguém. Nossas ancestrais também estiveram nesse lugar”, disse Tayana.
“Na nossa geração, é importante a gente resgatar e reverter esse cuidado para a gente, para o nosso corpo”, afirmou, enfatizando a importância de mulheres pretas se olharem no espelho e amarem o que vêem, em uma sociedade que padroniza corpos e não valoriza o biotipo negro.
“A Ana Autoestima fala com mulheres que trabalham de segunda a segunda, 12 horas por dia, e quando chegam em casa ainda têm que cuidar da casa e dos filhos, vivendo em condições de extrema violência social”, diz Tayana à BBC News Brasil.
“Nesse contexto, o autocuidado fica esquecido, ou essa mulher sequer teve oportunidade na vida de pensar a respeito. Porque desde muito nova, sempre esteve envolvida no cuidado com o outro”, ressalta.
Aprender a dizer ‘não’
Evelyn Cristina dos Santos tem 36 anos e acabou de começar um novo emprego como auxiliar de serviços gerais.
A mãe de cinco filhos comemora a carteira de trabalho assinada, mas a rotina é puxada: ela trabalha das 7h às 19h, de segunda a sexta-feira.
Evelyn é uma colaboradora-chave do projeto dentro da comunidade, onde mora desde os dez anos. Ela ajudou a conceber a Ana Autoestima desde o princípio.
Para o projeto dar certo, era essencial que as mulheres se identificassem com a personagem.
Assim, Ana foi criada como uma mulher negra, empoderada e com uma fala acessível, sempre se comunicando por áudio além de textos.
“Sempre tivemos uma preocupação de que ela não falasse apenas por mensagens escritas, porque aqui há muitas idosas e mulheres que não sabem ler”, diz Evelyn.

Como para outras mulheres da comunidade, a chegada do projeto de educação sexual trouxe mudanças importantes para Evelyn.
“Eu me casei muitas vezes e tive muitos casamentos abusivos, onde sofri muito, apanhei, fui muito traída”, conta a auxiliar de serviços gerais.
“Um deles dizia que minhas roupas marcavam o corpo, eram indecentes, que eu não devia usar brinco, batom”, lembra ela.
“Quando eu conheci a Ana, entendi que a gente não está sendo vulgar nem querendo chamar atenção, mas sim se valorizando, né? Se mantendo viva, feliz consigo mesma”, afirma.
Na comunidade, diz Evelyn, muitas mulheres são coagidas a fazerem o que não querem.
“A Ana tem um papel muito importante na minha vida, me fez descobrir quem eu sou. E que eu não preciso fazer só aquilo que o meu companheiro quer, eu posso fazer também o que eu quero. Eu posso dizer não.”
Vulva de pelúcia
Na roda de conversas, os ânimos se afloram quando chega a hora de distribuir para as mulheres um kit com camisinhas (masculina e feminina), lubrificante e um pequeno espelho para incentivá-las a conhecer melhor suas anatomias íntimas.
Laura Ramos Tomás leva para o centro da roda uma vulva de pelúcia laranja do tamanho de uma bola de basquete e indica cada parte – os lábios, a entrada do canal vaginal e o clitóris com suas ramificações, ensinando que este é o único órgão do corpo que serve apenas para gerar prazer.
“Eu não sabia que a minha perereca tinha tanta parte, tinha tanta camada!”, diz Taís à BBC News Brasil.
“Eu juro para você. Para mim, era um negócio que eu fazia xixi, menstruava e botava filho para fora. Não, é um negócio complexo…”
A vulva de pelúcia é um de diversos objetos que a equipe usa nas rodas de conversa para “tornar tudo um pouco menos intimidador”, explica Laura.
“Usamos acessórios para quebrar o gelo e ajudá-las a visualizar coisas que podem não ter visto nem ter familiaridade em seus próprios corpos”, conta a educadora sexual.
“Muitas vezes, vemos a imagem de um pênis grafitada em muros, ou crianças o desenham na escola. Mas vulvas são subrepresentadas neste mundo, e vulvas são lindas. Se estamos desenhando pênis, deveria haver o mesmo número de vulvas em nossos muros”, defende.
O evento termina com um sorteio: três vibradores são presenteados às mulheres.
O modelo é cor de rosa claro, no formato de um golfinho. As mulheres caem na risada quando o nome de Diana Alves é anunciado. É a terceira vez que ela ganha um vibrador em sorteios do projeto.
“Eu não sabia que se eu usasse algum brinquedinho, eu ia ter o mesmo prazer que eu tinha com um homem”, conta Diana à BBC News Brasil.
“Após conhecer, eu me interessei e comprei um. Só que o brinquedinho era meio ruinzinho. Aí eu ganhei um da Ana e foi maravilhoso. Aí eu ganhei outro, e o negócio ficou mais intenso. Eu até esqueço que tenho um namorado às vezes”, brinca ela, que tem 33 anos e trabalha como revendedora de revistas.
Ela não guarda segredo com o namorado, e contou a ele: “Arrumei um brinquedinho que faz tudo que você faz. Só não engravida e não me traz doença nenhuma.”

‘Grito de guerra’
O evento termina alegre e animado. Do lado de fora, as mulheres se reúnem em frente ao grafite da personagem Ana Autoestima para uma foto coletiva.
A repórter é designada para tirar o retrato e pergunta, antes de fazer o clique: “Qual é o grito de guerra?”
“Vulva!”, todas gritam em uníssono.
Laura Ramos Tomás afirma que o projeto tem mostrado que quebrar barreiras para falar de sexo tem efeitos que vão muito além das quatro paredes.
“Quando as mulheres envolvidas no projeto praticam o prazer, e entendem que é um direito, isso permite que elas se sintam fortalecidas em outras áreas de suas vidas… E se encorajem para ter uma conversa difícil com o parceiro sobre a carga de trabalho em casa, ou pedir ajuda para escrever um currículo atrás de um emprego, ou se alfabetizar aos 45 anos”, exemplifica.
“O valor do que fazemos é lembrar às mulheres que elas são as mais preparadas e têm o que é preciso para seguir em frente em suas vidas.”
